Homens e mulheres empatam na "barbeiragem" no trânsito

11/11/2013 11:30

Homens e mulheres empatam na "barbeiragem" no trânsito

 



Homens e mulheres empatam
na "barbeiragem" no trânsito

GUERRA DOS SEXOS — Mulheres se envolvem menos em acidentes, mas são minoria nas habilitações




A caminhoneira Luzinete França, 35, a "Filó": viagens semanais a São PauloQuando se fala da mulher motorista, surgem sempre duas colocações. Uma delas parte da ótica masculina e reza que mulher é barbeira. Outra teoria — levantada geralmente pelas próprias ofendidas — diz que a mulher dirige melhor, por ser mais cuidadosa. E para “provar” a afirmação é comum alguém alegar o fato de algumas companhias de seguro oferecerem descontos para mulheres justamente porque elas se envolvem menos em acidente.
Realmente as mulheres são minoria nos acidentes de trânsito. Pesquisas divulgadas por diversos meios de comunicação citam que elas são responsáveis por cerca de apenas 30% dos acidentes. O que muitas vezes não é citado nessas pesquisas, porém, é que as mulheres também são minoria no número de cartas de habilitação.
Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em novembro de 2002 havia 35 milhões de motoristas no país. As mulheres eram apenas 9 milhões contra quase 26 milhões de homens. O índice de mulheres que guiam é de apenas 26,17%.
Em Santa Cruz do Rio Pardo os números se aproximam dos dados nacionais. Um levantamento feito pela Polícia Militar aponta que entre fevereiro e maio deste ano foram registrados 116 acidentes de trânsito na cidade — com vítima, sem vítima e atropelamentos. Os condutores dos veículos envolvidos eram, na maior parte, homens — mais de 70%. Foram 198 condutores homens contra 78 mulheres — alguns acidentes tinham mais de dois veículos envolvidos.
Ocorre, porém, que o número de homens motoristas também é superior ao de mulheres em Santa Cruz do Rio Pardo. Um levantamento feito pelo DEBATE junto à Ciretran constatou que em 2002 o órgão expediu quase 6 mil carteiras de habilitação— entre novas, renovações e transferências.
Desse total, apenas cerca de 1.700 referiam-se à mulheres. Os homens condutores representaram 71,4% das habilitações.
Comparando os dados da Ciretran e da Polícia Militar pode se chegar à conclusão de que, na realidade, homens e mulheres empatam no quesito “barbeiragem”.
O número de homens que se envolveram em acidentes este ano representa 4,5% dos que tiveram habilitação em 2002. No caso das mulheres, o índice é o mesmo.
“Carga pesada” — Dirigir é a profissão da salto-grandense Luzinete França, 35, a Filó. E Filó não é apenas uma motorista profissional: ela dirige caminhões e carretas há seis anos. “Desde pequena sempre gostei de caminhão. Tinha muita vontade de dirigir um”, conta Filó. A vontade, aliás, foi tanta que ela aprendeu a guiar o veículo sozinha. “Eu observava muito bem quando alguém estava dirigindo e pegava o caminhão às escondidas quando dava”, afirma.
Ninguém na família se opôs quando Filó decidiu ser caminhoneira. “Na minha família havia outros caminhoneiros”, explica. Filó atualmente é funcionária de um empresa e viaja pelo menos duas vezes por semana para São Paulo de caminhão. “Não acho cansativo. Acho o serviço até pouco, comparado com o da firma em que eu trabalhava antes”, diz.
Há quatro anos, Filó trabalhava em uma empresa que mandava cargas para outros Estados. A primeira viagem que fez sozinha de caminhão foi para Salvador, na Bahia.
A caminhoneira afirma nunca ter sido discriminada profissionalmente por ser mulher. “Na primeira firma em que eu trabalhei diziam que eu era a melhor motorista, porque conseguia cumprir os horários. Os outros caminhoneiros não gostavam de mim”, conta.
Filó acredita que consegue manter o ritmo exigido justamente pelo fato de ser mulher. “É mais difícil uma caminhoneira dar carona ou ficar parando pela estrada”, explica.
A caminhoneira conta que prefere viajar à noite, quando o trânsito nas estradas é mais tranqüilo. “Não tenho medo. Apesar de ter sido roubada duas vezes, me sinto segura”, afirma.
Filó acredita que, independente de sexo, o que contribui para uma direção segura e tranqüila é a capacidade de cada pessoa. “Eu procuro fazer o meu trabalho da melhor forma. Graças a Deus nunca bati o caminhão”, diz.
Ela acha, porém, que as mulheres são mais cuidadosas quando estão dirigindo. “É aquele negócio: se eu estacionar errado, vão dizer que é porque sou mulher. Se bater, é porque sou mulher. A gente é um pouco discriminada nessa parte. Os homens são muito machistas, têm que acordar para a vida”, afirma.
A caminhoneira já está acostumada com a reação de surpresa das pessoas que a vêem descendo da cabine. “As pessoas ficam admiradas. Fico feliz porque tem alguém que acha o meu trabalho bonito”, conta.
Nos dias de descanso, Filó conta que costuma dirigir seu carro. “Mas não tem graça. Gosto mesmo é do caminhão”, finaliza.



Estatística rende seguro
para carro com desconto
Com base nos dados estatísticos que apontam um envolvimento menor de mulheres em acidentes de trânsito, algumas empresas de seguros de veículos até oferecem descontos quando o principal condutor especificado no plano for uma mulher.
A Valor Corretora de Seguros de Ourinhos, por exemplo, oferece planos do Unibanco e da AGF que possuem essa característica. “A maior parte das companhias de seguro dão desconto”, explica o proprietário da empresa e corretor Valter Francisco. “No caso do Unibanco, há até um produto específico chamado Mulher”, conta. Segundo Valter, o desconto é de aproximadamente 20%. Mas outras características entram no cálculo do seguro e, no caso das mulheres, podem render um desconto ainda maior. “Se a mulher tiver mais de 36 anos, o desconto é maior. Se tiver filhos menores de 10 anos, ainda mais”, explica. Em alguns casos, de acordo com Valter, certas características chegam a render um desconto de 30% a 40% no valor do seguro.
Essas ofertas são baseadas em estatísticas feitas pelas companhias de seguro. “Com certeza as mulheres se envolvem menos em acidente. Só não sei se tem menos mulheres dirigindo do que homens”, afirma o corretor.
‘Pegou’ — A proprietária da Proseg Seguros de Santa Cruz do Rio Pardo, Estela Tavares Vieira, trabalha há 15 anos no ramo e afirma que o seguro de veículos das companhias com que trabalha têm o mesmo preço para homens e mulheres. “Houve há muito tempo uma campanha promocional de uma seguradora com desconto para mulheres e pegou tanto que até hoje elas me perguntam se não é mais barato para o sexo feminino”, conta Estela.


Fonte: http://www2.uol.com.br/debate/1158/colunas/colunas07.htm